Crowdfunding Brasil
Todos Juntos

Texto publicado no jornal O Estado de São Paulo, no Caderno Link:
http://blogs.estadao.com.br/link/todos-juntos/

Por Anna Carolina Papp

SÃO PAULO – É ótimo quando uma boa ideia dá certo. Agora, quando 249 delas se concretizam de fato, melhor ainda. Criado para tirar esboços do papel e colocá-los em prática, o Catarse comemora seu um ano e meio de existência proporcionando financiamento de projetos de forma colaborativa. O site é a primeira plataforma de crowdfunding do Brasil – como são chamados os serviços com esse propósito.

A ideia já rondava os recém-formados administradores Diego Reeberg e Luis Otávio Ribeiro desde 2010. Inspirados pelo norte-americano Kickstarter e interessados no tal crowdfunding que despontava lá fora, se juntaram a Daniel Weinmann, de Porto Alegre, e colocaram o site no ar em 17 de janeiro de 2011.

Vingou: em um ano e meio, mais de R$ 3 milhões foram arrecadados e 249 projetos alcançaram a meta de financiamento.

Crowdfunding consiste em arrecadar um pouquinho de dinheiro de um monte de gente para pôr uma ideia em prática. No Catarse é assim: o idealizador envia seu projeto, diz o quanto precisa e até quando. Interessados fazem doações a partir de R$ 10. Se até o fim do prazo o valor for atingido, o criador recebe o dinheiro. Os apoiadores ganham uma recompensa em troca, que pode ser um adesivo, um jantar, uma camiseta. Se o projeto não vingar, o dinheiro é devolvido ou pode ser revertido em crédito para financiar outros projetos.

A colaboração não se limita ao financiamento. O Catarse abriu seu código, que foi usado por pelo menos outras 50 plataformas. “É uma forma de quebrar uma barreira, para o cara não pensar: tenho de começar minha plataforma do zero, então não vou fazer”, diz Luis Otávio.

Sete pessoas trabalham no site: três em São Paulo, duas no Rio de Janeiro, uma em Porto Alegre e uma em Belo Horizonte. Para se manter, o Catarse fica com 7,5% do valor arrecadado pelos projetos bem-sucedidos. Segundo os fundadores, o site não dá lucro, e nem é essa a proposta.

Diego diz que não gosta de definir o Catarse como uma startup que tem modelo de negócio e visa à expansão. “Podemos crescer devagar, organicamente. Não queremos quantidade, e sim projetos em que acreditamos.” Ele conta que já recebeu uma proposta de fusão, recusada por “não ter nada a ver com a ideologia” do site.

Projetos. Os fundadores dizem que o Catarse aceita projetos de qualquer tipo e que são abertos em sua curadoria, mas há critérios básicos. Primeiro de tudo: tem de ser um projeto, não uma ideia solta. “Tem de ter começo, meio e fim bem definidos. Eu (o idealizador) pego esse dinheiro, executo e entrego o quê para a comunidade? E o resultado tem de ser de acesso coletivo”, diz Luis. É preciso ter um vídeo de apresentação. Sem ele, a proposta é rejeitada.

Entre elas, não faltam casos curiosos. Alguém sugeriu levantar R$ 19 bilhões para comprar o Yahoo; outro queria ser o primeiro brasileiro a ir à Lua; fora ajuda para comprar um iPhone e para pagar a cirurgia da mãe. “Nesses casos, indicamos sites como o vakinha.com.br”, diz Diego.

Os fundadores contam que um dos planos é distribuir a curadoria. “A gente fala de colaboração, é bonito, mas quem decide quantos e quais projetos entram na plataforma são só duas pessoas; é até meio ditadura!”, brinca Luis.
Outra questão a ser melhorada é o relacionamento entre as pessoas envolvidas. Hoje o Catarse apenas encaminha e-mails de apoiadores aos criadores, que ficam responsáveis por responder e entregar a recompensa. “Queremos que esse processo de gerenciamento aconteça na própria plataforma”, diz Luis.

Na terça-feira, o Catarse realizou o primeiro “Rendezvous Catarse”. A confraternização aberta reuniu cerca de 400 pessoas em um bar na Vila Madalena, em São Paulo, em clima descontraído. Projetos foram expostos e houve até performance burlesca, além da exibição de vídeos de iniciativas concluídas.

Uma das intenções era incentivar o contato mais próximo, que já existia online, entre projetos aparentemente desconexos. “A internet aproxima as pessoas, mas por outro lado, afasta o contato pessoal, o olho no olho.”
Para os fundadores, apesar de novo, o crowdfunding tem grande potencial no País. Novos sites têm aparecido e o receio em colaborar tem diminuído. “A gente fala de financiamento, mas o dinheiro é só uma das moedas. Acontecem um monte de outras coisas (de valor): serviços e ações de voluntariado”, diz Luis.

Diego completa: “Queremos servir como ferramenta de mudança social, para organizar comunidades e potencializar ações”. E, meio sem graça, cita Nietzsche: “Que as pessoas, através do Catarse, possam viver o que Nietzsche chamava de ‘eterno retorno’: aquele momento que eles gostariam que durasse para sempre. Muitas vezes, a ideia que a pessoa propõe é o projeto da vida dela. Essa é a nossa satisfação”.

DEU CERTO! 

Alguns dos projetos que foram realizados graças à plataforma:

Belo Monte | O filme levantou a maior quantia até agora – R$ 140 mil – e já está na internet.
BaixoCentro | Festival levou eventos culturais ao Centro. Foram levantados R$ 17 mil.
Pimp My Carroça | Com R$ 64 mil, carroças foram reformadas e catadores, amparados.
Ônibus Hacker | Com R$ 58 mil, ônibus promove atividades do grupo Transparência Hacker.

Novas evoluções brasileiras no bem-sucedido modelo de crowdfunding

A impressionante – e emocionante! - explosão das plataformas de crowdfunding no Brasil desde janeiro de 2011 ganhou bastante espaço na mídia e em veículos especializados em negócios, recentemente: O GloboExameFolhaIsto éCanal FreadwritewebGlobo News 

Além da quantidade de plataformas lançadas/ anunciadas (mais de 10 desde então), chamam atenção as inovações propostas pelos brasileiros nesse modelo tão bem sucedido lá fora e cujo ícone de sucesso é o kickstarter - plataforma que mobilizou mais de 40 milhões de dólares para projetos criativos nos EUA em dois anos.

O grupo Queremos inventou o crowd-refunding, o Catarse abriu seu código e agora a benfeitoria, plataforma lançada quinta-feira passada, inova em dois aspectos:

1)      É a única do mundo que permite colaborações não financeiras para projetos – uma mistura de crowdfunding com outras modalidades decrowdsourcing, que permitem que o dono do projeto converta o entusiasmo coletivo gerado pela proposta em colaborações para outras demandas que o projeto apresente, além de dinheiro (ex. prestação de serviços de design, envio de materiais, etc).

2)      A plataforma não cobra comissão, diferentemente das demais plataformas do mundo, que cobram entre 5% e 15% do valor arrecadado de projetos bem sucedidos.   

Outra novidade que a benfeitoria traz para o mercado brasileiro é que não há filtro de projetos. Todos aqueles que respeitarem as regras e a proposta da plataforma – que é viabilizar colaborativamente iniciativas que gerem impacto positivo - serão publicados. Não coloco isso como inovação, pois a plataforma IndieGogo já o faz. Mas ela é tão polêmica quanto a decisão de ser gratuita. Como co-fundadora da plataforma, explico um pouco o que está por trás dessas decisões:


Por que ser gratuita e como ser sustentável financeiramente?

Optamos por não cobrar comissão por uma combinação de fatores:

Contexto: Como as taxas de transação financeira no Brasil são bem mais altas do que as praticadas lá fora (podendo chegar a 7%, dependendo do gateway e da forma de pagamento utilizados), achávamos que cobrar 5% adicionais do valor arrecadado pelos projetistas poderia ser um desincentivo à realização de projetos.


Tendência: Como a barreira de entrada nesse mercado é baixíssima (agora menor ainda, com a abertura do código do Catarse), apostávamos que, cedo ou tarde, ia aparecer uma plataforma gratuita – teoria defendida por Chris Anderson no seu livro, “Free/Grátis: o futuro dos preços”, que traz diversos exemplos de empresas que mesmo disponibilizando seu serviço gratuitamente, conseguem ganhar dinheiro (como Google, Facebook, Vimeo, Slideshare…). 


Missão: Como nossa missão é provocar impacto positivo e a forma mais poderosa de fazer isso é unindo diferentes esferas da sociedade (pessoas, governo, empresas, ONGs…), entendemos que a participação de empresas no modelo de negócios seria um passo importante no nosso discurso de aproximação de pessoas e instituições - além de ser possivelmente nossa principal fonte de receita.

Mas como fechar parcerias não é exatamente simples, principalmente no começo, quando não temos ainda uma audiência muito alta, abrimos outras frentes para gerar receita:


Doações: os colaboradores de projetos são convidados a contribuir com um valor adicional (e opcional) para a plataforma. Todo dinheiro arrecadado desta forma será destinado à divulgação da benfeitoria.


loja online: venda de itens da benfeitoria para aqueles que querem vestir a camisa do movimento – literalmente (em breve).


serviços especiais: a publicação de projetos é gratuita – e sempre será. Mas no futuro, planejamos oferecer serviços adicionais (e opcionais) que podem ser cobrados, como: consultoria, produção de vídeo, divulgação e etc.

Vale a ressalva de que a decisão de sermos gratuitos não passa por achar que as comissões cobradas pelas demais plataformas são injustas. Não são. Manter uma plataforma pode parecer simples, mas dá muito trabalho - gratificante, é verdade, mas ainda assim, há custos razoáveis envolvidos. A comissão é uma forma bastante comum e eficaz de fazer a roda girar. Simplesmente optamos por um caminho diferente. É claro que é a nossa aposta, mas só o tempo nos dirá se acertamos!

Como evitar que projetos mal feitos ou irrelevantes sejam publicados, prejudicando a imagem da plataforma?

A primeira coisa que fazemos quando recebemos um projeto é explicar melhor a dinâmica da plataforma, pois nem sempre a pessoa [leu e] entendeu. Já aqui, há algumas desistências, pois muitos percebem que, apesar de ser simples, fazer uma campanha de crowdfunding nos moldes de “Tudo ou Nada” não é fácil. Demanda um enorme esforço de divulgação e de planejamento. Em alguns casos, chegamos a recomendar a plataforma Vakinha, que não exige recompensas e não tem a regra do “tudo ou nada”.

O segundo passo é compartilhar algumas dicas que podem ser cruciais para aumentar as chances de arrecadação - dicas que podem ou não ser acatadas pelo(a) dono(a) do projeto. Se ele(a) quiser publicar o projeto da forma que está, pode. Na benfeitoria, quem decide se a iniciativa é relevante suficiente ou não para ser viabilizada coletivamente é o público.

Mas ter uma página publicada na benfeitoria não significa que haverá destaque para o projeto na plataforma. Democratizamos a oportunidade, mas precisamos de bons exemplos na home para inspirar outros projetistas - e em temas diferentes. Por isso, há sempre uma vitrine com 6 iniciativas selecionadas por nós na página principal do site. As demais poderão ser encontradas pela busca, por uma combinação de diferentes filtros e critérios de exibição ou mesmo pelo endereço diret do projeto: www.benfeitoria.com/projetoxxx. Acesse www.benfeitoria.com e entenda!

Essas são algumas das diferenças da benfeitoria vs as demais plataformas de financiamento coletivo do Brasil. Mas mais importante do que isso é a convergência de valores e a postura colaborativa adotada pelos criadores das plataformas: belos exemplos da tal geração G em ação (G de generosidade e não de Ganância). Para saber mais, acesse o Google Group sobre o tema e interaja com 240 apaixonados por esta nova forma realização – mais envolvente, democrática e colaborativa! 


Post originalmente publicado no Blog Crow o quê? e escrito por Tati Leite, cofundadora da benfeitoria

Multidão, Catarse e o Grupo Comum

O crowdfunding está presente em terras tupiniquins há poucos meses, mas isso não quer dizer que novidades interessantes não possam surgir, certo? 

O vídeo abaixo traz as informações e, principalmente, as razões da junção entre o Catarse e a Multidão. Confiram!

       

Por que abrimos os códigos do Catarse

Na sexta-feira (11/03), anunciamos no Google Groups desse CrowdfundingBR que os códigos-fonte do Catarse foram abertos, ou seja, estão disponíveis para qualquer pessoa acessar, propor mudanças ou utilizar como base para desenvolver seu próprio sistema.

Para que não fiquem dúvidas sobre por que fizemos isso, nada melhor do que apresentar nossas principais
motivações.

1 – A gente acha que esta é uma ótima maneira de desenvolver o crowdfunding no País. Por estarmos doando o trabalho que tivemos até agora, abrimos a possibilidade de pessoas que se identifiquem com o crowdfunding poderem agregar com seu trabalho para evolução da modalidade no Brasil.

2 – Somos apaixonados por colaboração – mesmo! E isso não é só na hora de colaborar para apoiar os projetos e ajudá-los a acontecerem. É também no conteúdo desse blog (onde várias pessoas já contribuíram com posts), desenvolvendo o software e, cada vez mais, permeando outras das nossas atividades. Na verdade, a gente acredita que colaboração é a palavra do futuro – se já não for a do presente, né?

3 – As possibilidades envolvendo crowdfunding são enormes e o movimento está apenas começando por aqui. Abrir os códigos é uma forma de impulsionar novas iniciativas. Por exemplo, é possível utilizar o que já está pronto para criar uma plataforma focada em crowdfunding para cursos ou eventos (mostras de arte, palestras, seminários, etc.). Isso seria fenomenal e praticamente ninguém atua nesses ramos.

4 – Facilitar na criação de um plugin. A ideia dele é fornecer o básico de um sistema de crowdfunding para que qualquer pessoa possa fazer uma campanha por conta própria.

Ainda podem surgir dúvidas se ao fazermos isso não haverá um crescimento exagerado no número de plataformas, sendo que algumas podem vir a oferecer um serviço precário, impactando negativamente o mercado como um todo.

Acreditamos que seja possível sim aumentar o número de plataformas, mas, na verdade, o software em si não é uma barreira muito grande. Qualquer pessoa pode contratar alguma empresa para desenvolver um sistema semelhante. Também achamos que o público saberá muito bem definir quais plataformas conseguem entregar um maior valor e as pessoas mesmo dirão quem deve permanecer no mercado. Quem não fornecer um bom serviço e, principalmente, não for motivado por paixão à modalidade, não se sustentará por muito tempo.

De qualquer forma, a conversa sempre pode se prolongar, pois sabemos que há muita gente mais do que disposta a fazer o crowdfunding acontecer no Brasil.

Deem suas sugestões, dicas, críticas nos comentários desse post para evoluirmos a conversa em conjunto.

PS: Para os que se interessarem pelos códigos, só pedimos uma coisa: que leiam com atenção as boas práticas que escrevemos e cultivem conosco uma cultura de respeito e reciprocidade. :)

Participar não é liderar! – O que você tem que pensar antes de começar uma campanha de crowdfunding?

Não é fácil liderar um campanha crowdfunding.

Ganhar a confiança das pessoas para que elas contribuam com o seu projeto é um trabalho árduo e que exige uma grande dedicação.

Elaborar um projeto no modelo em que as plataformas de crowdfunding exigem: uma boa descrição, um vídeo bacana e recompensas matadoras é, de longe, a parte mais fácil de se buscar financiamento colaborativamente. Depois que o projeto entra no ar é que a parte mais pesada do trabalho começa.

Por isso, você não pode parar para pensar, somente quando o prazo se inicia, em como irá mobilizar a sua rede, como irá gerar um buzz em torno do seu projeto, como irá chamar a atenção de seus amigos, familiares e fãs para o seu sonho, e mais importante, como irá atrair pessoas que não te conhecem ainda para apoiarem a sua causa.

Esse planejamento precisa estar pronto antes mesmo de o projeto ser enviado para o site. Essas são algumas perguntas que precisam ser respondidas:

- Você já tem claro como irá utilizar o Facebook, tanto em seu perfil pessoal como talvez explorar outras ferramentas, como criar uma página de Evento sobre o seu projeto?

- Qual será a sua estratégia no Twitter?

- Como conseguir posts em blogs de grande circulação para o público relacionado ao tema do meu projeto?

- Como atrair a atenção da mídia tradicional?

- Como “cavar” uma matéria em grandes jornais, portais de internet, revistas especializadas, programa de TV?

Se você começar a pensar nisso durante a campanha, poderá ser tarde demais. 

Nem pensar nisso, antes de colocar um projeto no ar, é deixar o resultado na mão do destino, da sorte.

Os projetos bem-sucedidos serão aqueles que possuem líderes por trás deles, não apenas participantes dessa nova modalidade de financiamento. Com o aumento do número dos projetos no site, mais do que expor, você terá que chamar a atenção para o seu projeto, garantir que mais pessoas saibam, acessem e, consequentemente, contribuam com o seu projeto.

Se você quer conseguir a grana necessária para realizar o projeto da sua vida, não seja apenas um coadjuvante no processo, tome a frente, lidere e faça o seu projeto acontecer.