Crowdfunding Brasil
Meios de pagamento e crowdfunding – possibilidades e dificuldades na realidade brasileira

Semana passada tive reuniões com pessoas responsáveis pelo desenvolvimento de negócios do MoIP e do PayPal - na minha visão, são as duas melhores opções quando a gente fala sobre meios de pagamento online. Talvez o PagSeguro seja mais conhecido, mas não possui a variedade de opções que são encontradas nos outros dois.

O objetivo era entender qual serviço disponível hoje consegue atender os requisitos que tornem uma plataforma crowdfunding viável no Brasil.

Na verdade, o meio de pagamento só será um complicador quando a gente fala de sites que resolvam adotar o tudo ou nada, ou seja, quando há a possibilidade de devolução do dinheiro para todos os incentivadores caso o projeto não consiga arrecadar sua meta dentro do prazo. A perspectiva adotada nesse post reflete essa opção.

Sistema ideal

O sistema ideal seria semelhante ao que ocorre no Kickstarter e que é fornecido pela Amazon Payments. Vejamos o que ocorre por lá:

1)  As pessoas escolhem o valor que irão incentivar e fazem o pagamento pelo sistema da Amazon;

2) A Amazon congela esse valor na conta do usuário, ou seja, ela não debita esse valor, mas armazena e garante-o (e essa sutileza talvez seja o seu grande diferencial);

3) Se o projeto alcançar o objetivo dentro do prazo, a Amazon debita o valor (já creditando em contas diferentes a porcentagem do Kickstarter e o que irá direto para o dono do projeto). Se não, apenas descongela aquele valor.

Um grande benefício desse sistema é que o Kickstarter, como intermediário entre os donos de projetos e as pessoas que incentivam, não precisa gerenciar a parte financeira e o dinheiro não passa por suas mãos antes da confirmação do sucesso do projeto.

Outro ponto relevante é que todos os incentivadores devem ter uma conta na Amazon. Seria um problema se fosse um meio de pagamento desconhecido, mas como a Amazon é a maior loja de e-commerce do mundo, imagino que seja um facilitador, já que grande parte das pessoas tem uma conta por lá.

A realidade brasileira

Bem, o problema é que nem sempre o ideal é o real. Sendo mais direito, não dá pra fazer isso que está dito aí em cima no Brasil. Vamos então encarar nossa realidade com as duas possibilidades encontradas:

a) Estorno

I) Assim que é feito um pagamento, o valor é debitado na conta/cartão do incentivador e é creditado na conta MoIP/PayPal do site de crowdfunding.

II) Se o projeto é bem sucedido, o site se responsabiliza por transferir o dinheiro ao dono do projeto. Se o valor total não for arrecadado, a empresa terá que fazer o estorno de todas as transações.

III) Caso o pagamento tenha sido feito pelo cartão de crédito, o estorno ocorrerá na sua próxima fatura. Se for no débito ou por boleto bancário, o incentivador precisaria abrir uma conta na plataforma de meio de pagamento para receber o valor.

*Aqui não é necessário possuir uma conta no meio de pagamento para efetuar uma doação, todavia, se o usuário tiver uma, o processo de pagamento é mais rápido (não precisa preencher informações como o número de cartão de crédito, telefone).

No caso do MoIP, o volume máximo de estornos que podem ser feitos é de 3% (em relação à quantidade de transações) e pode haver até  170 dias entre a data de pagamento e a data do estorno.

Já no PayPal o volume máximo de estornos que podem ser feitos é de 8% (em relação à quantidade de transações) e pode haver até 60 dias entre a data de pagamento e a data do estorno.

    b) Autorizar e cancelar pagamentos

Aqui o sistema é muito parecido com o que ocorre na Amazon, com um grande diferencial: os meios de pagamento não conseguem congelar o valor assim que o pagamento é feito e a cobrança só será efetuada lá na data final do projeto.

E quais são as implicações disso? Surgem riscos associados aos seguintes fatos: o usuário pode não ter mais limite no seu cartão, seu cartão pode ter sido cancelado/bloqueado, sua conta pode ter sido fechada. O grande problema é que o sucesso do projeto pode depender do incentivo dessas pessoas.

Imagine que um projeto pedia R$ 3.000,00 e havia arrecadado R$ 3.200,00. No último dia, constata-se que um dos doadores, que havia feito um incentivo de R$ 500,00, estourou o limite do seu cartão e a quantia não foi debitada. Com isso, o projeto arrecadou, na verdade, R$ 2.700,00, não atingindo seu objetivo.

E quanto eu pago por isso?

O mais trágico ponto é, creio eu, em relação às taxas cobradas. Ai vão elas, sem enrolação:

MoIP: R$ 0,39 + 5,4% - 7,4% (depende do volume negociado no mês), por transação.

PayPal: R$ 0,60 + 5,4% - 7,4% (depende do volume negociado no mês), por transação.

Fiz algumas simulações (com diferentes objetivos e tomando como base alguns valores do Kickstarter a respeito de faixas de incentivos mais comuns) para verificar o impacto dessa taxa fixa no valor total. Utilizando o MoIP, considerando 5,4% como taxa variável, se o projeto tivesse como objetivo R$ 20.000, a taxa total seria de 6,28%. Se o objetivo fosse de R$ 2.000,00, seria de 6,52%.

O objetivo aqui é demonstrar que tais taxas elevadas, se não comprometem as iniciativas crowdfunding, pelo menos atuam como barreiras para o desenvolvimento desse mercado.

Conclusão

É fato que os meios de pagamento são desenhados hoje tendo em vista o e-commerce, e o crowdfunding exige algumas funcionalidades até contra-intuitivas – afinal, nenhuma loja pensa em ter o estorno por prazos longos como uma das características mais importantes do seu meio de pagamento. Mas acho também que a empresa de meio de pagamento que vislumbrar antecipadamente as oportunidades desse novo mercado – e encarar os sites de crowdfunding como parceiros, não apenas como clientes - pode obter vantagens relevantes que influenciarão na percepção dos seus clientes principais – as lojas eletrônicas.

PS: Se eu receber mais alguma informação do pessoal do PayPal ou da MoIP nos próximos dias, eu atualizo o post.

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